O ensino e a aprendizagem da Matemática no contexto da Síndrome de Down.
Silvana Luísa Heinz- Professora da Sala de Recursos e Matemática da EMEF Meno Dhein
Graduada em Licenciatura Matemática- Unisinos
Aperfeiçoamento em AEE(Atendimento Educacional Especializado)- FEVALE
A crença que sustenta a afirmativa de que um aluno com Síndrome de Down não aprende Matemática, conforme Bissoto (2005 p. 84) é muitas vezes percebida como:
[...] pano de fundo, um não investimento, por parte dos pais e professores, em ensinar os fundamentos matemáticos aos portadores de Síndrome de Down, resultante da visão estereotipada de que estes não desenvolverão habilidades matemáticas.
Ao desenvolver o ensino da Matemática com os alunos com SD, é imprescindível levar em consideração suas capacidades individuais ao observar, na perspectiva de Bissoto (2005, p.87): “[...] o processo de desenvolvimento particular, fruto de condições genéticas e sócio históricas próprias.”
Conforme Gardner (2000), cada indivíduo é um sujeito ímpar com forças cognitivas diferentes. Cada sujeito aprende de formas e estilos diferentes. O autor afirma que as inteligências não mudam com a idade humana, mas sim com a experiência como atributo do indivíduo. Ele afirma que as inteligências não nascem prontas nos sujeitos, mas que sofrem fortes influências em relação ao meio em que o indivíduo está inserido.
Já Jean Piaget (1978, apud ROSA, 2009) acredita que a inteligência no indivíduo sofre fortes influências e estímulos do meio que o cerca. Seus estudos apontam que quanto mais ele interage com o meio, mais desenvolverá sua inteligência. Assim, quando participamos ativamente dos acontecimentos, assimilamos mentalmente as informações sobre nosso meio e transformamos o conhecimento adquirido em formas de agir sobre ele. Por isso, o professor precisa estimular a curiosidade dos alunos, acompanhando suas possibilidades e anseios no desenvolvimento das atividades, levando em consideração seu desenvolvimento.
O conhecimento lógico-matemático, segundo Piaget (1978, apud ROSA, 2009), é uma construção que resulta da ação mental da criança sobre o mundo, construído a partir de relações que a criança elabora na sua atividade de pensar o mundo, e também das ações sobre os objetos. Portanto, a criança não pode ser ensinada por repetição ou verbalização, a mente não é uma tábula rasa. Então cabe ao professor, proporcionar ao aluno com SD situações desafiadoras de aprendizagem matemática.
Todo conhecimento novo é construído apoiando-se sobre os conhecimentos anteriores que, ao mesmo tempo, são modificados. Na interação desenvolvida por um aluno em uma situação de ensino, ele utiliza seus conhecimentos anteriores, submetendo-os à revisão, modificando-os, rejeitando-os ou os completa [...] assim o aluno constrói novas concepções. (MORENO, 2006, p. 48)
Partindo então do pressuposto de que a aprendizagem matemática acontece nessa perspectiva, estas condições precisam ser trabalhadas com os alunos com SD, tendo em vista que estes alunos, conforme González (2007, p.92) ainda mais que os outros, precisam ser estimulados pelo manuseio de material concreto e visual, uma vez que na escola geralmente os professores enfatizam mais o ensino oral e “estas crianças são mais lentas em suas reações”. Motivado pela concepção de que o ensino da Matemática é importante para o desenvolvimento de todos os seres humanos, o professor precisa estimular os alunos a refletir sobre as situações que o rodeiam no seu contexto social. Ao proporcionar atividades diversificadas para o aluno desenvolver o raciocínio lógico-matemático, cria-se estímulos, fazendo com que ele perceba a aprendizagem matemática em seu cotidiano, pois sabe-se que ela faz parte da vida diária e pode ser aprendida de uma maneira dinâmica, desafiadora e significativa. A conscientização do professor de que seu papel é proporcionar diferentes possibilidades para que os alunos participem das aulas como sujeitos ativos é fundamental.
No entanto, o professor precisa observar que o ambiente influencia no aprendizado do aluno, ou seja, o professor precisa considerar e valorizar essas influências, retomando seu posicionamento em relação ao aluno, incentivando a construção de saberes matemáticos.
A matemática tem urgência em ser ensinada como instrumento para interpretação das coisas que rodeiam nossas vidas e o mundo, formando assim pessoas conscientes para a cidadania e a criatividade e não somente como memorização, alienação e exclusão. É necessário e possível modificar esse enfoque atual do ensino de Matemática, garantindo um currículo que favoreça a construção do pensamento lógico-matemático das crianças através de sua ação/reflexão, considerando suas diferenças a partir dos estágios em que estão inseridas, cada qual com suas particularidades, mas todas em busca de algo em comum: aprender. (ROSA, 2009, p.806)
Carvalho (2000) ratifica essa reflexão, afirmando que para tornar a aprendizagem significativa e útil para a vida do educando, é preciso conhecer quais são os obstáculos que impedem esta aprendizagem e removê-los a fim de garanti-la.
Percebe-se, também, a importância de adaptações e flexibilizações curriculares significativas, considerando a concepção de Carvalho (2000), que todos os alunos devem ser vistos como sujeitos da sua aprendizagem. Por isso, sente-se a necessidade de oferecer a estes discentes atividades desafiadoras e motivadoras, para que de fato ocorra uma aprendizagem relevante. Nesse aspecto González (2002. p.241) acredita que:
O movimento para responder à diversidade, numa escola inclusiva, tem muitas implicações para os professores e para as próprias escola. Que devem centrar-se na busca de estratégias de ajuda para todos os alunos, a fim de que estes possam se desenvolver ao máximo suas possibilidades. É necessário, portanto, analisar e aprofundar aspectos que possam favorecer ou dificultar o desenvolvimento profissional e intervir adequadamente para que os professores trabalhem em condições adequadas e rendam ao máximo.
Sendo assim é necessário dentro dos ambientes escolares criar espaços para a construção de saberes matemáticos importantes e acima de tudo que estimular a autonomia dos alunos com SD.
Referências Bibliográficas:
BISSOTO, Maria L. Desenvolvimento cognitivo e o processo de aprendizagem do portador de síndrome de Down: revendo concepções e perspectivas educacionais. In: Ciência & Cognição, v. 04, p.80-88, mar. 2005. Disponível em: <http://www.cienciasecognicao.org/pdf/ v04/m11526.pdf> Acesso em: 20 de ago. de 2011.
CARVALHO, Rosita. Removendo Barreiras para a aprendizagem. Porto Alegre: Editora Mediação.2000. 173 p.
GARDNER, Haward. Inteligências Múltiplas: a teoria na prática. Tradução: Maria Adriana Verinese. Porto Alegre: Artmed. 2000. 257 p.
GONZÁLEZ, Eugenio. GONZÁLEZ, Maria Del Pilar. Síndrome de Down: Aspectos Evolutivos e Psicoeducacionais.In: GONZÁLEZ, Eugenio (Org). Necessidades Educacionais Específicas: intervenção psicoeducacional. Tradução: Daisy Vaz de Moraes. Porto Alegre: Artmed, 2007.p. 86-99.
MORENO, Rosa Beatriz. O ensino do número e do sistema de numeração na educação infantil e 1ª série. In: PANIZZA, Mabel e colaboradores. Ensinar Matemática na Educação Infantil e Séries Iniciais. Tradução de Antonio Feltrin. Porto Alegre: Artmed, 2006. p. 43-76.
ROSA, Roseli i Scuinsani. Piaget e a Matemática. In. I Simpósio Nacional de Ensino de Ciência e Tecnologia. Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR, 2009. Paraná. p 801-807. Disponível em: <http://www.pg.utfpr.edu.br/sinect/anais/artigos/9%20Linguagemecognicaonoensinodecienciaetecnologia/Linguagemecognicaonoensinodecienciaetecnologia_Artigo5.pdf>. Acesso em: 24 set. 2011
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